Foto: Reprodução/Instagram (@eco.arte.loja)

“O momento mais difícil nesse período foi justamente se reerguer, né, a família.”

“Com o diagnóstico do câncer, eu não parei. Eu não achei que as coisas tinham acabado. Eu simplesmente atravessei.”

Histórias diferentes, mas com o mesmo desafio: recomeçar. No Pará, mulheres que enfrentaram momentos difíceis encontraram no empreendedorismo um caminho para seguir em frente.

Em 2015, a vida da família de Jeovana Reis mudou de forma inesperada. O barco de pesca do pai, que garantia o sustento da casa, naufragou. Com a dificuldade financeira, a mãe, Ângela Reis, e as três filhas, Adriane, Jéssica e Giovanna, precisaram encontrar uma nova fonte de renda. A solução estava dentro de casa: o talento de Ângela para o artesanato.

“A gente viu o potencial que tinha de empreender, de conseguir essa renda, até porque a minha mãe pôde também se empoderar, de ver o potencial dela e ter realmente essa renda, esse trabalho, empreendendo com o talento dela”, contou Jeovana.

Ângela trabalhava com sementes amazônicas desde a juventude, e foi desse conhecimento que nasceu a Eco Artes Biojoias, uma marca que transforma sementes, escamas de peixes e outros insumos da Amazônia em peças autorais.

“Quando a gente percebeu a importância de trazer esse olhar mais voltado para essa valorização das sementes, da bioeconomia, em que a gente via o potencial que tinha de passar a utilizar as sementes, as escamas, madeira de reaproveitamento nos acessórios, nas biojoias, a gente abraçou isso.”

Ao longo dos 10 anos de existência da marca, Jeovane conta que, para se consolidarem no mercado, não bastava apenas o talento na criação das peças. Foi necessário buscar conhecimento em gestão, vendas e estratégias de negócio.

“Desde 2024, quando a gente começou a buscar mais o Sebrae, da regularização como MEI, de posicionar mais a marca, a gente percebeu uma grande diferença. A gente conseguiu crescer e ter mais visibilidade”, enfatizou.

A história da Jeovana não é um caso isolado. Cada vez mais mulheres estão buscando no empreendedorismo uma fonte de renda, autonomia e recomeço. Só no Pará, 13,5% das mulheres em idade ativa são empreendedoras, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados pelo Sebrae. Nacionalmente, elas lideram 52% dos pequenos negócios.

Pesquisas do Sebrae também apontam que, em 10 anos, o empreendedorismo feminino cresceu 27% no Brasil, o que representa mais de 10 milhões de empreendedoras em todo o país. Segundo a gerente de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, Renata Batista, muitas mulheres estão transformando habilidades em oportunidade de negócios.

“Nós temos percebido um aumento da procura de artesãs pelos programas do Sebrae. O Sebrae tem trabalhado a economia criativa, e, dentre os participantes, a grande maioria são mulheres e empreendedoras. O que ressalta que esse saber, né, essa habilidade dessas mulheres está sendo transformado em negócio, respeitando a característica regional, sendo a característica regional utilizada como um potencial diferencial competitivo do mercado”, afirmou.

E foi justamente a habilidade manual que deu esperança para Sandra Nascimento. Após enfrentar um câncer em estágio avançado, ela precisou reconquistar seu espaço no mercado de trabalho. “E após o término da quimioterapia, eu achando que eu ia voltar a trabalhar com o que eu queria, eu já comecei a encontrar dificuldades, porque você parar, você perde. Parece assim que eu tinha ficado para trás”, disse.

O tratamento terminou em 2020, e Sandra passou por mais um desafio: a pandemia da covid-19. Foi durante o isolamento que ela começou a produzir joias autorais com pedras naturais, peças de crochê e fios de cobre, criando assim a marca Fiorella Joias.

“Através do artesanato, através da arte, eu acabei me encontrando e me reinventando. Me reinventei, realmente, e hoje, com 62 anos, eu tenho assim um orgulho muito grande de dizer que eu sou uma artesã e que eu vivo da arte”, relembra.

Dados do Sebrae indicam que pessoas entre 55 e 65 anos representam 30,3% dos donos de micro e pequenas empresas no Brasil. Para a coordenadora do curso de Administração da UNAMA – Universidade da Amazônia, Alessandra Meirelles, o movimento mostra que experiência e capacidade de adaptação são fatores essenciais para transformar desafios em oportunidades.

“O fato do empreendedorismo da ‘cabeça prateada’, como a gente fala, o 50 mais, está crescendo e é algo que a gente tem que contar com a experiência. E experiência não se aprende, experiência se vive”, enfatizou.

Apesar de ter experiência com vendas, Sandra sabia que, para o empreendimento dar certo, ela precisava de capacitação e novas estratégias de negócios.

“Eu resolvi ir no Sebrae e aí o Sebrae me ajudou a dar uma alavancada realmente no meu negócio. Justamente nesse buscar o Sebrae, eu percebi a diferença do vendedor para o empreendedor. O vendedor é aquele que pega qualquer produto e oferece: ‘Olha, eu tenho isso para vender, quer comprar?’. O empreendedor não, ele busca conhecimento, ele busca capacitação, ele busca inovar, ele busca algo diferente, ele trata o cliente dele de uma forma diferente”, afirmou.

Para fortalecer o empreendedorismo feminino, foi criado o programa Sebrae Delas, que apoia mulheres nos pequenos negócios por meio de capacitações, conexões e desenvolvimento de competências, como explica a gerente Renata Batista.

“O Sebrae Delas, além de trabalhar o negócio dessa mulher, ele reconhece essa mulher através do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, trabalha competências socioemocionais, então a gente fala de liderança, fala de autoimagem, gestão de tempo e, principalmente, o Sebrae Delas cria uma rede de networking, uma rede de apoio para essas mulheres. Há uma preocupação de manter a conexão entre as mulheres que participam desse programa, porque a gente sabe que a rede de parcerias entre as mulheres, ela possibilita maiores resultados e ela promove, assim, uma melhoria e uma continuidade do negócio”, explicou.

O recomeço pode nascer em meio às incertezas, dores ou crises. E o empreendedorismo vai além do que apenas um negócio: ele se torna uma nova oportunidade de vida. Histórias diferentes, mas com um ponto em comum: a coragem de seguir em frente.

“É muito gratificante, realmente, a gente olhar para trás e também ver a nossa evolução, né, como mulheres”, afirmou Jeovana.

“A vida começa quando você decide fazer alguma coisa. Não importa se tu tens 18, 20, 30, 40, 60. Eu acredito que até nos 70, nos 80, tu resolvendo fazer alguma coisa, tu tendo a atitude de fazer, você faz”, enfatizou Sandra.

Ouça a reportagem completa de Rebeca Costa para o RádioJornal 30 Minutos:

Texto e reportagem: Rebeca Costa