O despertador toca e, antes mesmo de abrir os olhos, a lista de pendências já começou a rodar. Para muitas mulheres, a chegada ao escritório não significa o início do expediente, mas sim a transição de uma jornada para outra: a de ser o suporte que garante que tudo ao redor funcione.
No livro “Aurora: O Desperta de uma Mulher Exausta”, a jornalista Marcela Ceribelli revela que esse cansaço não é fruto de uma má gestão de tempo, mas de uma carga invisível que a sociedade espera que as mulheres carreguem para lubrificar as relações profissionais.
Embora o termo “trabalho emocional” tenha inundado as redes sociais em 2020, suas raízes são sociológicas e o conceito foi criado pela socióloga, feminista e professora universitária Arlie Hochschild, no livro “The Managed Heart: Commercialization of Human Feeling” (O Coração Gerenciado: A Comercialização do Sentimento Humano), publicado pela primeira vez em 1983.
Hoschschild define que esse espaço consiste em gerenciar os próprios sentimentos para moldar o estado mental dos outros. No escritório, isso se traduz na mulher que precisa modular sua voz para não parecer “agressiva” ou ser “paciente” diante de interrupções que seus colegas homens não tolerariam.
Essa disparidade é detalhada no artigo “Women’s Jobs, Men’s Jobs: Sex Segregation and Emotional Labor” (Empregos femininos, empregos masculinos: segregação sexual e trabalho emocional), de Mary Ellen Guy e Meredith A. Newman, que demonstra como o mercado de trabalho é segregado pela expectativa de que mulheres ocupem o papel de “cuidadoras” do clima organizacional.
Uma vez que o trabalho emocional está presente em profissões historicamente atribuídas a mulheres. Esse esforço de mediar conflitos e manter a harmonia do time, contribui para o aprofundamento da desigualdade salarial; por mais que seja extremamente cansativo suprimir suas verdadeiras emoções, é raro ser reconhecido como uma função legítima.
Essas competências estão ausentes em descrições de vagas de empregos e avaliações, especialmente no cálculo de remuneração. O romance “Primeiro eu tive que morrer”, de Lorena Portela, espelha esse cenário na vida da protagonista, no qual sustenta a “genialidade” de seu chefe publicitário através de uma contenção de danos emocional constante, anulando-se para que ele brilhe.
Para aprofundar a raiz desse comportamento, o episódio #38 do podcast “Bom Dia, Obvious”, criado por Marcela Ceribelli, tem como convidada psicanalista, Maria Homem. Ela aponta que a mulher muitas vezes aceita o papel de “mãe de todos” no trabalho por uma construção psíquica: fomos ensinadas que nosso valor está em sermos úteis e amadas pelo cuidado que oferecemos. No ambiente corporativo, isso vira uma armadilha, onde a profissional sacrifica seu desejo e seu tempo estratégico para não perder o lugar de “colaborativa”.
Além da gestão de sentimentos, há as “tarefas domésticas corporativas” (como organizar o café, lembrar de aniversários ou redigir atas). Ao aceitar esses papéis por um “sim” automático, a mulher entra em uma zona de penumbra, onde sua competência técnica é ofuscada por sua serventia administrativa. A advogada Bárbara Feio, professora do curso de Direito da UNAMA – Universidade da Amazônia, explica o impacto legal dessas demandas invisíveis na carreira da mulher.
“Essa questão desse trabalho de cuidados, dessas tarefas invisíveis ou do trabalho emocional, infelizmente está diretamente ligada à questão de gênero. Essas tarefas que acabam recaindo sobre as mulheres são atividades distintas daquelas para as quais você foi contratada, e isso sim pode gerar acúmulo de função. O trabalhador brasileiro realmente está esgotado fisicamente e emocionalmente. Nós vivemos ativados no modo de sobrevivência e isso tudo acaba causando um desgaste muito grande”, afirma.
Essa engrenagem de esgotamento, no entanto, começou a bater de frente com a legislação. A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho mudou as regras do jogo ao incluir obrigatoriamente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas.
Na prática, isso significa que fatores organizacionais que geram estresse crônico, jornadas exaustivas e a cobrança velada por disponibilidade constante fora do expediente não são mais vistos como “falta de resiliência” do funcionário, mas como riscos de segurança do trabalho que a liderança é obrigada a mitigar.
Ao trazer a saúde mental e a prevenção ao burnout para o rigor da fiscalização trabalhista, a nova NR-1 valida legalmente o fardo que as mulheres carregam há décadas: o esgotamento no escritório deixou de ser um drama íntimo para se tornar uma infração corporativa. Sobre essa mudança, Bárbara Feio traz dados alarmantes sobre o cenário nacional.
“Nós aqui no Brasil tivemos até o ano de 2025 um registro de mais de 470 mil benefícios concedidos em razão de afastamento por adoecimento mental. E a NR-1, que passa a ter vigência agora em 26 de maio de 2026, é uma norma que procura orientar, regulamentar e garantir um espaço laboral mais saudável, fiscalizando as questões relacionadas ao burnout, que está equipado a acidente de trabalho, e o assédio moral. A fiscalização vai ser realizada através do Ministério Público do Trabalho, com aplicação de multas às empresas que descumprirem os requisitos”, destaca.
O despertar que Marcela Ceribelli propõe não tem a ver com “aprender a dar conta”, mas está relacionado à coragem de desapontar as expectativas alheias para salvar a própria existência. Ao nomear o invisível através de vozes como as de Hochschild e Maria Homem, e sob a luz de novos amparos legais, o livro convoca as mulheres a abandonarem o posto de zeladoras emocionais do patriarcado corporativo.
A “aurora” só acontece quando a mulher entende que o seu descanso não é um prêmio por ter servido a todos, mas um direito inegociável de quem decidiu, finalmente, parar de morrer um pouco a cada jornada para começar a viver a sua própria.
Por Anna Magalhães, aluna de Jornalismo da UNAMA, com supervisão da jornalista Isabella Cordeiro