Uma planta originária da Amazônia essencial para a medicina moderna é o foco de um projeto revolucionário de conservação realizado na Floresta Nacional de Carajás (FLONA de Carajás), no sudeste do Pará.
O jaborandi (Pilocarpus microphyllus), única fonte natural conhecida da pilocarpina – medicamento usado no tratamento de glaucoma, síndrome de Sjögren e xerostomia –, é classificado como vulnerável na Lista Vermelha da Flora Brasileira.
Há anos, a espécie tem sido pressionada pelo manejo e coleta inadequados e pela perda de habitat, o que torna a situação especialmente crítica por não existir uma alternativa sintética consolidada à pilocarpina extraída da planta e a conservação dela uma questão simultaneamente ecológica, médica e econômica.
Para preservar a diversidade genética do jaborandi, pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) desenvolveram um banco de germoplasma com plantas vivas, na FLONA Carajás, cultivadas em condições seminaturais em áreas de restauração ecológica dentro da própria floresta.
A abordagem foi necessária porque a planta não pode ser conservada pelos métodos tradicionais, uma vez que suas sementes perdem a viabilidade rapidamente. Diante desse cenário, a criação do banco surgiu como um método sustentável para garantir a longevidade do jaborandi.
Resultados expressivos
Entre 2020 e 2023, o grupo de pesquisadores coletou sementes de quatro populações geneticamente distintas dentro da FLONA, produziu mudas em viveiros e as transferiu para áreas antigas de mineração em diferentes níveis de recuperação.
Com monitoramento individual para cada planta – desde a sua origem materna até o campo –, foi possível identificar algumas dificuldades em cada etapa da propagação e ajustar as estratégias de coleta.
Até 2023, três das quatro populações demonstraram resultados significativos, com mais de 500 plantas estabelecidas cada e representação genética adequada das populações silvestres. A quarta população, porém, segue enfrentando desafios, sendo a prioridade das próximas coletas.
Além da conservação do jaborandi, o propósito da pesquisa é fornecer material para o desenvolvimento de outros estudos que possibilitem a replicação do método para outras espécies que também não suportam o armazenamento tradicional.
O artigo foi publicado na renomada revista científica PLOS One e pode ser lido aqui.
Por Isabella Cordeiro