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Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) revelaram que o mosquito Anopheles cruzii, considerado anteriormente como a única espécie transmissora da malária, na verdade, é um conjunto de cinco linhagens geneticamente diferentes.

Essa descoberta, publicada na revista Communications Biology, do grupo Nature, pode revolucionar as estratégias de controle da malária no Sul e no Sudeste do Brasil. Desde o início do século XX, quando houve uma epidemia em meio à construção da ferrovia São Paulo-Santos, acreditava-se que o Anopheles cruzii era o principal vetor da doença em áreas de Mata Atlântica.

A pesquisa, no entanto, indica que ele não age sozinho. Por meio do uso de tecnologia de ponta, os cientistas constataram que o mosquito tem pelo menos cinco espécies, que têm a mesma aparência externa; porém, não possuem capacidade genética de reprodução entre si.

Os pesquisadores da UFSC, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisaram milhares de genes para mapear o DNA desses mosquitos, após a coleta em cidades da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Os resultados comprovaram que o complexo Anopheles cruzii é formado por cinco linhagens distintas, batizadas de A, B, C D e E: sendo a linhagem A mais amplamente distribuída na região costeira, abrangendo Florianópolis, enquanto as outras apresentaram características mais locais, como a linhagem E, avaliada somente nas amostras coletadas em Santa Teresa, município do Espírito Santo.

Para além da identificação taxonômica, a descoberta é importante para a saúde pública e no desenvolvimento de políticas de combate ao mosquito. Segundo os pesquisadores, a capacidade de transmissão do parasita da malária (Plasmodium) pode variar radicalmente entre as cinco linhagens.

No Brasil, a malária é uma zoonose que possui dois tipos de transmissão. Os casos ocorrem majoritariamente na Floresta Amazônica (90%), transmitida por mosquitos do subgênero Nyssorhynchus. Já na Mata Atlântica, onde houve uma época em que os registros da doença chegaram a 40 mil por ano, os mosquitos do subgênero Kerteszia se reproduzem em bromélias.

Diante desse cenário, é fundamental conhecer a estrutura genômica dessas populações para que seja possível compreender quais linhagens são os vetores realmente importantes para a malária. Caso a ciência identifique que apenas uma ou duas delas sejam responsáveis pela transmissão, a vigilância sanitária poderá atuar de forma mais precisa e econômica.

Por Isabella Cordeiro