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Marcado para sexta-feira (23), às 21h20, na TV Globo, o confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) contará com uma iniciativa de verificação independente organizada por profissionais da comunicação e instituições ligadas ao combate à desinformação. A proposta é analisar as declarações dos candidatos à medida que forem feitas, permitindo que o público tenha acesso a informações verificadas enquanto acompanha a discussão.

A iniciativa, anunciada após o debate realizado pela TV Band no domingo (18), pretende contribuir para que os eleitores avaliem as falas dos presidenciáveis com mais elementos, especialmente em um período marcado pela circulação intensa de conteúdos políticos nas plataformas digitais.

O que é “fact-checking” e por que ele importa?

Conhecida como “fact-checking”, a checagem de fatos consiste em confrontar declarações públicas, notícias e informações divulgadas com dados, documentos e registros confiáveis. Embora verificar informações faça parte do trabalho jornalístico, a prática também se consolidou como uma atividade especializada, desenvolvida por agências independentes ou vinculadas a organizações de imprensa.

Com a expansão da internet e das redes sociais, conteúdos políticos passaram a circular rapidamente, muitas vezes alcançando um público amplo antes que sua veracidade seja examinada. Nesse cenário, a checagem busca oferecer referências para que as pessoas compreendam o que foi dito e identifiquem possíveis erros, informações enganosas ou declarações que precisam de contextualização.

Em reportagem publicada pelo Metrópoles com a professora de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), Rafiza Varão, é explicado que com o crescimento dos amabientes digitais, a necessidade de se verificar a veracidade das informações que circulam nas redes sociais. A fundadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila, também destaca que o trabalho envolve comparar afirmações que circulam publicamente com as bases de dados independentes e confiáveis.

Nos debates eleitorais, essa tarefa ganha uma dimensão ainda mais relevante. Quando um candidato apresenta um dado ou faz uma acusação, o público precisa de elementos para avaliar a afirmação, em vez de depender apenas da força do discurso ou da reação provocada pelo confronto.

Entidades se unem para acompanhar declarações ao vivo

A mobilização para o debate de sexta-feira reúne jornalistas, pesquisadores e organizações que atuam nas áreas de comunicação e enfrentamento à desinformação. Entre as instituições participantes estão a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e a AletheiaFact.org.

Também integram a iniciativa a Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar), a Socicom, a COAR Notícias e o Coletivo Bereia.

Os participantes atuarão em uma sala virtual de checagem, examinando as declarações feitas durante o encontro. O público poderá acompanhar as verificações pelos canais da Fenaj e da RNCD no YouTube.

Segundo os organizadores, a ação não pretende substituir o trabalho das agências especializadas, mas ampliar o acesso à informação verificada durante o próprio debate. A intenção é aproximar a checagem do momento em que as declarações são feitas e começam a repercutir entre os espectadores.

A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, relaciona a iniciativa ao exercício consciente do direito ao voto. Já Ana Regina Rêgo, criadora da RNCD, destaca a importância de facilitar o acesso a informações confiáveis durante o confronto eleitoral. Para Iluska Coutinho, presidenta da Intercom, a comunicação e a pesquisa científica também desempenham um papel importante na defesa da democracia.

Por que a checagem ao vivo ainda enfrenta obstáculos?

Apesar da mobilização, implementar a verificação de informações durante debates televisivos não depende apenas de recursos tecnológicos. Questões políticas, econômicas e jurídicas também dificultam a adoção desse modelo pelas emissoras.

Segundo Cristina Tardáguila, ouvida pelo Metrópoles, já foram consideradas diferentes maneiras de incorporar a checagem às transmissões, como inserir informações na parte inferior da tela, apresentar verificações nos intervalos entre os blocos ou divulgar um balanço após o encerramento do programa. No entanto, essas possibilidades enfrentam resistências.

Entre os desafios apontados estão a oposição de candidatos e campanhas, as preocupações de patrocinadores e organizadores e a necessidade de respeitar a igualdade de tempo prevista na legislação eleitoral.

A discussão ganhou força após as sabatinas dos presidenciáveis na TV Globo e o debate da Band, quando internautas e profissionais da imprensa passaram a reivindicar a adoção da checagem em tempo real. Uma petição virtual em defesa da medida ultrapassou 700 mil assinaturas, segundo o Metrópoles.

A repercussão evidencia uma demanda por mecanismos que ajudem o público a avaliar as declarações dos candidatos, mas também revela a complexidade de inserir novas práticas em formatos de debate já estabelecidos.

O debate eleitoral para além do confronto

O encontro realizado pela Band no último domingo (18) também contribuiu para ampliar a discussão sobre o papel dos debates na formação da opinião pública. Em manifestação posterior, a Fenaj criticou o formato do programa e avaliou que provocações e ataques prejudicaram o esclarecimento dos eleitores.

Para a entidade, quando perguntas ficam sem resposta e afirmações não são confrontadas, o público perde a oportunidade de compreender melhor os temas apresentados pelos candidatos.

Nesse contexto, a checagem aparece como uma ferramenta complementar ao jornalismo: não elimina a necessidade de acompanhar o debate, analisar propostas ou consultar diferentes fontes, mas oferece recursos para examinar afirmações que podem influenciar a percepção dos eleitores.

A cobertura eleitoral também exige atenção ao contexto das informações. Um dado pode estar correto e, ainda assim, ser apresentado de maneira incompleta; uma acusação pode ser feita durante o confronto sem que isso represente, por si só, uma comprovação. Por isso, verificar significa não apenas procurar erros, mas também investigar a origem das informações e os elementos necessários para compreendê-las.

Informação confiável também faz parte do voto

Em uma disputa presidencial acompanhada simultaneamente pela televisão e pelas redes sociais, a velocidade da informação torna o trabalho de verificação ainda mais importante. A iniciativa prevista para o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro representa uma tentativa de aproximar esse processo do cotidiano dos eleitores.

A checagem, porém, não substitui o senso crítico nem encerra a discussão sobre as propostas dos candidatos. Seu papel é oferecer elementos para que o público forme a própria avaliação com base em informações verificáveis.

Fontes: Agência Brasil; Metrópoles; Sinal News

Por Gabriela Ferreira, aluna de Jornalismo da UNAMA, com supervisão da jornalista Bebel Chaves