Um estudo publicado na revista científica Nature mostra que a saúde da floresta é um fator determinante para a disponibilidade de carne de caça, podendo afetar a alimentação de povos indígenas e comunidades tradicionais em diversas localidades da Amazônia.
A pesquisa reuniu dados primários e secundários coletados entre os anos de 1965 e 2024 e os estudiosos analisaram mamíferos, aves, répteis e anfíbios caçados pelas comunidades da região. Além disso, usaram modelos espaciais para calcular onde presas costumam aparecer com mais frequência.
O objetivo do trabalho é mostrar que os debates acerca da fauna precisam considerar elementos como alimentação, cultura, economia e conservação simultaneamente. Sem estrutura, os animais tendem a desaparecer ou se tornam mais difíceis de encontrar, e o resultado afeta a subsistência alimentar dos povos amazônicos.
A degradação florestal diminui a quantidade de abrigos, interrompe deslocamentos e altera a oferta de frutos e sementes. As atividades de caça são praticadas com mais tempo de procura, porém com retorno reduzido, e as famílias precisam percorrer distâncias ainda maiores para conseguir a mesma quantidade de carne ou substituir os alimentos tradicionais por produtos comprados.
Diante desse panorama, o artigo defende que falar sobre conservação é indispensável, uma vez que preservar uma floresta conectada significa manter uma fonte de proteína, uma prática que é símbolo cultural e uma rede de conhecimentos sobre comportamento, reprodução e sazonalidade animal.
O estudo também propõe que a caça não seja vista como ameaça única e nem que a floresta represente um estoque infindável. O artigo argumenta que a conservação precisa proteger as populações animais, respeitar os direitos e compreender o uso tradicional dos recursos.
O desafio, portanto, é manter um equilíbrio por meio da diferenciação de práticas tradicionais, regras locais e impactos provocados por atividades que transformam profundamente a paisagem. Proteger os animais significa manter a cadeia ecológica e cuidar da floresta é assegurar a base física dessa cadeia, garantindo que os direitos das comunidades também sejam amparados.
Por Isabella Cordeiro