A saúde mental ainda é um tabu e muitos jovens relatam dificuldade em procurar ajuda profissional. Isso reflete no aumento de casos nessa faixa etária entre meninos de 18 a 24 anos, é o que afirma a psicóloga Christiane Tenório.
“Nós temos ainda vários paradigmas a serem quebrados na questão da saúde mental, dessa necessidade de tratar, de cuidar, de prevenir, não esperar só vir o transtorno para depois cuidar”, ressalta.
A sociedade ainda cobra dos homens que sejam fortes e que não mostrem fraqueza. Mas a verdade é que a vulnerabilidade é humana. Permitir-se sentir e buscar ajuda é um sinal de força, não o contrário.
“Um jovem universitário, que trabalha em vários lugares, reconhece que a falta de tratamento só faz aumentar a ansiedade. “Eu reconheço que eu tento negar isso, mas eu estou me tornando uma pessoa muito ansiosa e por não cuidar disso eu acabo ficando mais ainda e é horrível, porque parece que tu vais se afundando num buraco [de] onde tu não consegues sair”, relata.
A masculinidade tóxica diz que homens não choram, não falam sobre sentimentos, não pedem ajuda. Isso é um erro grave. Quando os homens finalmente buscam ajuda, muitas vezes é tarde demais. O risco de complicações como depressão severa ou até suicídio aumenta expressivamente, segundo a psicóloga Daniela Américo.
“É colocado que o homem precisa ser uma pessoa viril, ser uma pessoa funcional, sadia; logo, demonstrar que precisa de ajuda, que não tá dando conta, estar demonstrando sinais de esgotamento mental, de cansaço, vai de encontro com essa identidade que a sociedade os força a criarem”, pontua a especialista.
Christiane Tenório aponta ainda quais os primeiros sintomas. “Passar várias noites sem dormir é um sintoma. Ter no meio do dia, sem motivo nenhum, palpitação, sudorese, também é um sintoma. Viver angustiado, viver cansado também são sintomas. Então é necessário falar”, reforça.
A psicóloga Daniela Américo explica ainda como procurar ajuda nas universidades públicas e privadas, onde contam com as clínicas-escola, com projetos voltados para o atendimento público interna e externamente.
“Nós temos trabalhos voltados ao plantão psicológico em algumas instituições. Nós temos instituições também que nos convidam a palestrar, a realizar plantões, a realizar determinadas atividades ali para aquele público e para aquela demanda. Então é importante que a universidade esteja na sociedade. Estar na sociedade é uma forma de divulgar”, afirma.
Christiane Tenório aponta um caminho para começar a buscar ajuda profissional. O Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS) é um serviço público e gratuito do Sistema Único de Saúde (SUS), voltado ao atendimento de transtornos mentais graves e severos, e conta com equipes multiprofissionais para acolhimento e reinserção social.
“Qualquer pessoa pode ser atendida pelo CAPS. Eles não têm uma faixa etária pré-definida, tem profissionais para todas as faixas etárias. É um acesso que não é portas abertas. Você precisa ir encaminhado pelo posto de saúde da sua região, de onde você mora. Que aí você já vai com a data marcada, o médico vai estar lá para atender você. Na maioria dos casos a medicação que ele prescreve também tem na rede pública, você pode retirar sem o custo financeiro. Então assim, é muito eficiente buscar isso no início”, alerta.
Daniela finaliza dizendo que aceitar que se precisa de ajuda é o primeiro passo em direção ao tratamento, e que não é um sinal de fraqueza, e sim um ato de coragem.
“A nossa primeira estratégia sempre vai ser trabalhar a construção dessa identidade. Como é que ele se vê, como ele se vê quando precisa de ajuda, quando precisa de um tratamento. Porque o aceitar de que precisa de ajuda é um dos passos mais importantes para o tratamento. É mostrar que você pode permitir que outra pessoa lhe conduza em um processo para sua melhora, para o seu bem-estar”, conclui.
Ouça a segunda parte da reportagem de Izabel Chaves para a Rádio UNAMA FM:
Leia a primeira parte da reportagem aqui.
Texto: Izabel Chaves / Edição: Heraldo Cruz