Em um mercado extremamente competitivo, especialmente diante de tantas inovações, criar um negócio do zero é um grande desafio. Ainda assim, o empreendedor Heber Almeida encontrou uma solução onde poucos enxergariam: no lixo. Literalmente. Criador da startup BR Circular, Heber conta que começou a se reinventar por meio da oferta de serviços e da reciclagem de resíduos até então pouco explorados.
A partir da compostagem, itens como eletrônicos, sandálias, material têxtil e até mesmo a bituca de cigarro ganham uma nova utilidade. Hoje, com o propósito de transformar descarte em algo rentável, a BR Circular atua em Belém e Castanhal com mais de 10 tipos de resíduos.
“A ideia é trabalhar com o que as pessoas descartam. Isso fica muito evidente na relação com as cápsulas de café, onde as empresas poderiam jogar as cápsulas de café no lixo comum. E nós vamos lá, recolhemos e damos um outro significado, não só voltar para a empresa de origem, mas também trabalhando com biojoias, com guarda-chuva”, destaca o empreendedor.
O Pará é o terceiro estado da Amazônia Legal em número de negócios inovadores. A BR Circular, por exemplo, faz parte de um ecossistema de 423 startups mapeadas. Segundo a gerente de sustentabilidade e inovação do Sebrae no Pará, Renata Batista, os principais obstáculos desse cenário envolvem o acesso à capital, validação do mercado, conexão com clientes e a própria gestão dos empreendimentos.
“Muitas startups nascem com boas ideias, mas ainda precisam comprovar que resolvem um problema real, que existe cliente disposto a pagar e que o modelo de negócio consegue crescer. E quando a gente fala do Pará, a gente tem um território muito grande, e isso impacta no custo logístico, menor concentração de investidores”, explica.
Por outro lado, Renata afirma que o Pará tem potencial para desenvolver soluções vinculadas à Amazônia, especialmente nas áreas da bioeconomia, sustentabilidade, alimentos regionais e turismo. “O papel do Sebrae é reduzir o risco da jornada empreendedora. A gente ajuda o empreendedor a validar se a ideia tem mercado, a estruturar modelo de negócio, a acessar tecnologia e se conectar com parceiros”, complementa.
O diferencial da BR Circular, como aponta Heber, consiste em dois fatores: a proximidade com os clientes e a atuação com resíduos que outros empreendimentos não gostam de trabalhar – a exemplo da bituca de cigarro.
“Nós coletamos a bituca de cigarro, oferecemos o serviço; depois de recolhido, ela se se transforma em massa celulósica. E essa massa celulósica na mão de artesão, ela vira arte. Ela pode virar brindes, pode ir para a construção civil. A gama é enorme. Na nossa filosofia, não existe sustentabilidade sem o catador, que é peça importante nesse processo”, reforça.
Mas os impactos da BR Circular não param na reutilização de resíduos. Embora não realize contratos diretos, a startup fomenta a atuação de costureiras, artesãos e motoristas, contribuindo para a geração de renda extra de várias pessoas. Carregando a missão de conscientização a respeito da reciclagem, Heber comenta que o próximo passo é expandir o negócio para o Sul do Pará.
“O nosso sonho é que as pessoas tivessem essa consciência com os resíduos, que ele saiu de uma matéria-prima e que ele precisa voltar de alguma maneira para a sociedade, não poluindo nossos rios, prejudicando a vida de outras pessoas. Tratar o resíduo com a responsabilidade de que isso pode prejudicar outras pessoas. Essa que é a nossa mensagem”, conclui.
Reportagem: Izabel Chaves
Edição: Heraldo Cruz