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Os grafismos marajoaras, presentes na cerâmica produzida por povos indígenas que habitaram a região do Marajó antes da colonização, serão levados ao cenário internacional da moda. Uma coleção de calçados inspirada nesses desenhos será apresentada no dia 23 de setembro, durante a Semana de Moda de Milão, na Itália.

A apresentação será realizada no Consulado-Geral do Brasil em Milão e faz parte de uma missão internacional que ocorre entre os dias 20 e 30 de setembro. A iniciativa reúne a marca de calçados sustentáveis DOTZ, o Instituto Costurando Sonhos Brasil, o Instituto Tucunaré e o G10 Favelas.

A produção conta com a participação de artesãos de Cachoeira do Arari, no Marajó, responsáveis pela interpretação e aplicação dos grafismos nos calçados. As referências são reproduzidas por meio de técnicas como pintura, bordado e carimbo, mantendo o trabalho manual na produção das peças.

Para Rodrigo Doxandabarat, cofundador da DOTZ, a construção da coleção partiu da troca direta com os artesãos e do conhecimento sobre as técnicas tradicionais. “A ideia não é simplesmente pegar um desenho, reproduzi-lo num calçado, mas construir essa aplicação junto com quem conhece e trabalha a linguagem. E a partir dessa troca, selecionamos juntos os grafismos, pensamos como podem dialogar com as formas dos nossos calçados.”

A coleção também busca preservar as características dos grafismos durante a adaptação para o design dos calçados. O trabalho envolve diferentes modelagens e formas de aplicação, fazendo com que cada técnica mantenha suas particularidades.

Segundo Rodrigo, a participação dos artesãos foi considerada essencial para evitar que os elementos culturais fossem utilizados apenas como referências estéticas. “Existe uma diferença muito grande entre se pegar livremente uma cultura e trabalhar diretamente com as pessoas que são portadoras desse conhecimento. Nós escolhemos o segundo caminho. Por isso os grafismos não aparecem como uma simples referência estética. Eles chegam até o produto através do trabalho e interpretação dos próprios artesãos.”

A escolha da Itália também possui relação com a história do Marajó. O projeto presta homenagem ao padre italiano Giovanni Gallo, sacerdote e pesquisador que se dedicou à preservação do patrimônio arqueológico da região e fundou o Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari. Seus estudos sobre a cerâmica marajoara serviram como referência para os grafismos utilizados na coleção.

Além da apresentação em Milão, parte das peças será mostrada no dia 14 de setembro, no Hotel Rosewood, em São Paulo. A missão prevê rodadas de negócios e encontros com representantes da indústria da moda italiana, com o objetivo de ampliar as possibilidades de circulação e colaboração para os artesãos envolvidos.

A proposta, de acordo com o cofundador, é utilizar a moda como uma forma de aproximar o público internacional da cultura e dos profissionais que mantêm esses saberes. “Esperamos antes de tudo criar visibilidade e novas oportunidades. Levar esse trabalho para Milão durante um período tão importante significa colocar a cultura e o artesanato marajoara diante de um público que talvez nunca tivesse tido contato com uma realidade assim.”

A iniciativa ainda prevê a entrega de um par de sapatos ao Papa Leão XIV e o convite à cantora italiana Laura Pausini para ser madrinha do projeto. Para custear a viagem de artesãos e costureiras, o Instituto Costurando Sonhos Brasil também abriu uma campanha de financiamento coletivo. Para quem deseja doar e saber mais sobre o projeto, basta acessar o site oficial do instituto: costurando sonhos Brasil .

Por Sarah Carreiro, aluna de Jornalismo da UNAMA, com supervisão da jornalista Isabella Cordeiro