Ester Sá estreia espetáculo “Bença Vovó” em Belém
Foto: Divulgação

Em São Caetano de Odivelas, bois, pirrus, cabeçudos e buchudos tomam as ruas na quadra junina. Foi nesse cortejo que nasceu a personagem Vovózona, com características marcantes, que se destaca dançando e brincando no meio da multidão. Personagem forte, que inspirou o espetáculo “Bença Vovó”, com dramaturgia e atuação de Ester Sá e direção compartilhada com Aníbal Pacha.

Ester relembra a conversa com o amigo And Santtos em que conheceu a história.

“E, no meio dessa conversa, ele disse assim: ‘Olha, tu estás sabendo que surgiu uma nova personagem, a Vovózona?’ Então, ele pegou o celular dele e começou a me mostrar fotos da Vovózona. Eu fiquei encantada com isso. O que me encantou, né? Nossa, uma mulher, uma personagem mulher na manifestação. Uma avó, uma mulher velha, uma mulher ancestral, né? Então, eu fiquei muito curiosa para saber. E ele começou a me contar que conheceu o mestre que criou, que é o mestre Daniel, que criou as máscaras da Vovózona. E, nessa primeira conversa, não me veio imediatamente a ideia de que isso poderia virar um espetáculo, mas, nos dias que se seguiram, eu fiquei pensando na Vovózona e, quando apareceu a oportunidade do edital da Pnab, aquela ideia já estava comigo. Eu comecei a pensar, conversei novamente com o And, peguei mais algumas fotos e elaborei o projeto pela Pnab para poder virar um espetáculo”, comenta.

A curiosidade virou pesquisa. Ester descobriu que a Vovózona foi inspirada em Dona Exídia Ferreira de Melo, avó do Mestre Daniel Ferreira de Melo, da família do Boi-Tinga, o primeiro da manifestação. Na época dela, as mulheres não podiam participar dos cortejos. 

Ester conta o sentimento que despertou nela ao saber da história.

“Isso foi marcante pra mim porque é uma mulher que estava desde o início, da época do surgimento do primeiro boi, que foi o Boi-Tinga, e agora ela retornava como uma personagem, né? Sendo que, logo no início da brincadeira, não era permitido as mulheres brincarem. As mulheres não brincavam no início, era uma brincadeira considerada só dos homens”, afirma.

Em cena, Ester conduz a narrativa com depoimentos e memórias, usando a terra como metáfora, como se dela brotassem as imagens dessa trajetória. As máscaras são do Mestre Daniel, figurinos e cenário de Nanan Falcão, com pinturas do And Santtos e Maurício Francco.

Ester Sá explica como traduz no palco a ideia da avó como aquela que viu tudo, sabe tudo e é a voz ancestral.

“Essa voz ancestral, ela é uma voz do inconsciente coletivo que vem à tona. A voz de todas essas mulheres, porque o espetáculo foi composto com a somatória de muitas vozes. São as mulheres que estão hoje na brincadeira, que me contaram suas histórias, as histórias das suas memórias. E essas vozes, elas costuram a narrativa do espetáculo. São essas vozes ancestrais que estão dentro da gente e que são acordadas dentro de nós quando a gente rememora, né? Quando a gente revive a memória ancestral”, conclui.

“Bença Vovó” estreia dias 6 e 7 de novembro, às 19h, na Casa das Artes, ao lado da Basílica de Nazaré. Depois segue para Ananindeua, dia 11, às 16h, na Usipaz Icuí, e São Caetano de Odivelas, dia 14, às 19h. Já no dia 19, Ester ministra a Oficina de Teatro Narrativo, na Casa das Artes, na rua Dom Alberto Gaudêncio Ramos, no bairro de Nazaré, em Belém.

Pâmela Gomes, para o Radiojornal 30 Minutos.