O Coletivo Artístico Ava Amazônia, composto por artistas do povo Tupinambá do Pará, será o único a representar o Brasil na 1ª Bienal de Arte Indígena de Buenos Aires. Aberta até o dia 12 de abril, a mostra internacional, instalada no Pabellón de las Bellas Artes da UCA, reúne 46 criadores de vários países latino-estadunidenses.
A bienal foi inaugurada nesta quarta-feira (11), com o título “Voces Indígenas Contemporáneas: Una mirada desde el corazón de las comunidades”. A proposta da exibição é dar visibilidade às cosmovisões e histórias das comunidades originárias do continente.
O Brasil está presente na coleção “Arqueologia da Alma”, através de cuias trabalhadas com incisões que retomam grafismos ancestrais. Assinadas pelo artista Theo Lima, da Ilha das Onças, em Barcarena (PA), as obras compõem uma proposta estética que move o objeto tradicional do campo do artesanato para a contemporaneidade.
As cuias são apresentadas como tecnologia ancestral e ciência moderna, em uma leitura que une saberes originários, memória coletiva e experimentação artística. A processo criativo de Theo é uma culminância de mais de 25 anos de estudo da iconografia marajoara e das vivências no distrito de Icoaraci.
Com esse repertório, o artista passou a transformar elementos naturais da floresta amazônica em peças carregadas de simbolismo espiritual e identitário. O artista também desenvolve pesquisas em antropologia visual, mitologia e cosmologia marajoara, criando cuias inspiradas em símbolos clânicos do período inicial de ocupação do arquipélago.
Para a liderança fundadora do Coletivo e conselheira estadual de cultura audiovisual do Pará, Jazz Tupinambá, a participação na bienal ultrapassa o campo estético e se insere em uma disputa narrativa sobre representação e pertencimento, sendo um ato de diplomacia ancestral.
“Diante das práticas ilegais que agridem os rios da Amazônia, sobretudo com a situação crítica atualmente no Tapajós, é profundamente simbólico representarmos o Brasil com as cuias, ícone intrínseco da nossa cultura em plena conexão com as águas, nossa principal fonte de vida. Lembrar a importância da preservação da cultura originária é sinônimo de respeito ao meio ambiente e um futuro digno a todos”, completa.
Por Isabella Cordeiro